Alagoas – Memórias do VIII Seminário de Capacitação docente de Maceió (AL)

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Alagoas – Memórias do VIII Seminário de Capacitação docente de Maceió (AL)

A Associação de Professores de Ensino Religioso de São Paulo (ASPER) no final de 2003 em sua reunião fez memória do Seminário de Capacitação de Docentes, na ocasião apresentaram uma síntese de alguns momentos do evento. Com autorização da Associação partilhamos esta memória.

Obs. Os textos abaixo resultam da síntese pessoal de membros da ASPER, o material não foi revisto pelos palestrantes.

1. Epistemologia do Ensino Religioso (Prof. Dr. Domenico Costella): Este estudo é muito recente e por isso mesmo há o que ser pensado. Mudança de paradigma é coisa séria. Nossa cultura veio da Europa. É monolítica, cristã, o velho continente também está procurando novos caminhos para responder o novo momento em que vivemos. Diante do pluralismo religioso e de um Estado laico não é mais suficiente para o entendimento de tantas diferenças. A epistemologia, esse campo do saber, mostra o quanto este campo abre-se para o saber. A América Latina ainda tem a cabeça na Europa e este contexto pluricultural em que vivemos é muito complexo, trazendo dificuldades de gerenciamento das comunidades, que como a escola, tem que lidar com inúmeras dificuldades. A escola não é uma empresa, é lugar de formação do indivíduo. A Epistemologia contemporânea nos tem apresentado valiosas contribuições para a compreensão dessa realidade. Também as teorias da relatividade, da física quântica e outros campos de estudos estabelecem princípios norteadores significativos. Os progressos científicos, tecnológicos, as novas leis da cibernética, tudo vem nos apontando rumos para o uso da inteligência humana que, para surpresa de todos parece voltar-se para uma nova espiritualidade. Há estudos muito interessantes de inteligência múltipla que nos podem ajudar. É preciso promover a cultura da “reciprocidade” como regulativo da convivência. Esse Ethos da reciprocidade começa na estima de si próprio, de sua própria cultura, que passa pelo cuidado do outro, e está muito longe do egoísmo cultural. Nossa aspiração maior é viver, trabalhar, contemplar as Instituições justas, onde o viver em comunidade significa assumir trabalhos, obrigações e distribuir dons. O horizonte do ser humano é a plataforma dos “DIREITOS HUMANOS” que, no mundo pós-moderno, deve garantir a cidadania.

2. O Ensino Religioso (Prof. Dr. Sérgio Rogério Azevedo Junqueira): É importante compreender a diversidade de leitura que os técnicos e políticos da área de educação realizam sobre o Ensino Religioso, promovendo divergências muita das vezes graves, depurando esta área do conhecimento, considerando simplesmente o Ensino de uma Religião, que poderá provocar duelos religiosos em nossa sociedade e não diálogo entre cidadãos. Sentimo-nos confusos muitas vezes ao verificar o que é proposto por legislações nem sempre claras e objetivas, desafiando a nossa capacidade de interpretação para orientar os diferentes planejamentos em Secretarias Estaduais e Municipais da Educação, assim como no cotidiano da sala de aula. Compreendemos este desafio na própria história deste componente curricular utilizado como ferramenta por líderes religiosos com a clara intenção de ampliar seus seguidores. Neste cenário os pedagogos, os professores do Ensino Religioso encontram-se com a proposta de sistematizar um componente curricular que responda a educação brasileira no processo de formação de um cidadão crítico e consciente, neste caminho encontra-se o Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso de diálogo com políticos e líderes religiosos que confundem o papel do aspecto religioso, assim como existe o diálogo com professores e pesquisadores que buscam a estrutura epistemológica deste novo e atual ENSINO RELIGIOSO. O caminho está ainda no princípio.

3. O Docente do Ensino Religioso na formação do cidadão (Prof. Dr. Francisco Cordão): A função da escola hoje é desenvolver a capacidade de entender, de discutir, analisar, refletir e com isso completar nossas referências, nosso quadros de valores, ou seja, desenvolver competências que é a capacidade de articular os conhecimentos, habilidades que são desenvolvidas a partir de todo este processo, provocando respostas originais, criativas e transformando qualitativamente o espaço social que ocupamos. Transformar os desafios cotidianos em soluções originais exige conhecimento, saber olhar o mundo com perspicácia, sem abandonar os ideais da solidariedade humana. Ter a habilidade de entrar em contraponto com a competividade internacional sem ferir os direitos. A orientação da conduta deve estar dentro dos parâmetros éticos. A principal tarefa do professor não é dar aula. Isso é apenas um dos instrumentos de que se utiliza: o mestre na concepção grega é o que conduz o educando a emancipar-se, gera discípulos e não devotos. O professor digno desse nome jamais para de crescer no conhecimento humano. Sua tarefa é provocar o processo de aprendizagem. O Ensino Religioso faz parte deste percurso, trabalhando valores, como outros componentes curriculares conduzem a todos os saberes. Entre o quais o saber conviver e a ser, que por sua vez está no centro do trabalho do Ensino Religioso, mais do que nunca um cidadão deve aprender a ser. Hoje se valoriza o TER e não o SER, o mundo consumista é contraponto do SER e CONVIVER. O Ensino Religioso tem que manter permanente “diálogo” com as demais áreas do conhecimento. Ele perde o sentido quando desintegrado do restante da Escola. O professor do Ensino Religioso deve estar neste conjunto completamente articulado. Sugiro que se leia os artigos 12 e 13 da Lei de Diretrizes e Bases (9394/96), pois nestes textos encontra-se a espinha dorsal da legislação e da atuação dos professores. A primeira responsabilidade da legislação está em solicitar que os estabelecimentos de ensino explicitem a proposta pedagógica. A escola tem a proposta. O professor de Ensino Religioso deve estar contextualizado com as diretrizes da escola. Para tal existem tipos de participação: 1. estar totalmente informado, tem o docente o direito e o dever de conhecer a proposta da instituição; 2. qual o compromisso ético do professor para com os alunos, famílias e o social? O trabalho docente deve estar integrado, pois só assim se aprenderá a SER e a CONVIVER. Não basta somente estar informado, é preciso “vestir a camisa”, ou seja aceitar a proposta como sua. Levar seus valores de forma a impregnar, contrapor os demais professores. Nessa perspectiva de zelo pela aprendizagem dos alunos, cuidando com responsabilidade, o Ensino Religioso passa a ser muito mais que um comprometimento curricular obrigatório. Ele é parte integrante da Educação básica do cidadão, não se trata de ensinar, mas provocar aprendizagens. O escritor Guimarães Rosa dizia: “O professor é aquele que ensina, mas é aquele que de repente aprende”. É nesse relacionamento de consciências que se respeitam é que acontece o SABER. Ecumenismo, diálogo religioso numa perspectiva de vida cidadã, só tem sentido quando não há conflito entre cidadania e religiosidade. Além dessa necessidade de que todos os professores de Ensino Religioso reconheçam os princípios, há que se pensar no fenômeno religioso, que é a dimensão ético-político, essencialmente os valores que influenciam o julgamento que a pessoa faz no sentido de orientar-se socialmente. O direito fundamental da prática religiosa precisa ser garantido. O ser humano está permanentemente selecionando-se com o outro, com a divindade e consigo mesmo. O Ensino Religioso, Teologia, Licenciatura, formação de professores, tudo isto foi muito bem discutido pelo Conselho Nacional de Educação que forneceu vários pareceres. Há muito que se caminhar, mas o professor de Ensino Religioso possui uma contribuição importante para aprimorar o SISTEMA EDUCACIONAL BRASILEIRO.

Publicado originariamente em 11 de fevereiro de 2013.

/ Brasil

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