França – ‘Eles destruíram minha vida’, diz aluna de 12 anos

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França – ‘Eles destruíram minha vida’, diz aluna de 12 anos

Reunidas na sala de estar de sua casa, após a ruptura do jejum, Dounia, a sua irmã Manèle, Khouloud, Samia e Sarra, todas francesas de origem argelina, compartilham a sua angústia e a sua perplexidade. “Eles acabam de destruir a minha vida”, garante Khouloud, de 12 anos. No final da tarde deste mesmo dia, ela foi excluída do colégio Jean-Macé de Mulhouse, assim como a sua amiga Dounia. Uma aluna brilhante, ela sonha tornar-se médica. Ela não está entendendo essa lei. “A minha classe gostava de mim de jeito que eu era. No ano passado, os meus camaradas não me pediram para mostrar os meus cabelos para me eleger representante da classe”, comenta. Para dar continuidade aos seus estudos, ela conta com a ajuda de seu pai, que era professor de tecnologia na Argélia antes de se tornar operário na Peugeot quando emigrou para a França, e com o auxílio de uma assistente-educadora do colégio. Dounia e ela conservaram uma recordação penosa de seu afastamento. “Eles nos puseram em quarentena. Eles não nos deixavam ir até o pátio na hora do recreio. Eles nos criticavam por estarmos trajando saias compridas, ou seja, vestimentas supostamente tradicionais”, explica Dounia, que também tem 12 anos. “O que eles querem, é nos ver trajando calças apertadas, iguais àquelas que todas as garotas ‘na moda’ do colégio usam”, acrescenta Khouloud. Dounia suportou com muita dificuldade a prova do conselho de disciplina. “No ano passado, outros conselhos similares já haviam acontecido em várias oportunidades, mas eles haviam sido motivados por acontecimentos graves, tais como casos de vandalismo em carros. Eu nada tenho em comum com esse tipo de aluno. Eu não tinha nenhum problema neste estabelecimento”, diz. Ela traja um lenço sobre a cabeça desde que ela completou 10 anos. “Eles acreditam que são os pais que obrigam as garotas a usá-lo, mas os meus pais eram contra”, prossegue. “Eu queria me tornar cabeleireira assim como a minha mãe, e depois resolvi que eu queria ser uma policial”. Agora, ela já não sabe mais. Ela tem medo da perspectiva de trabalhar sozinha. Felizmente, o seu pai “é bom em línguas e em matemática”, enquanto a sua irmã, Manèle, “a ajudará”. Manèle, de 17 anos, que estuda na quinta série científica, no liceu Louis-Armand, traja o véu desde a segunda série. Nesta quarta-feira (20/10), ela foi convocada para se apresentar perante um conselho de disciplina. As palavras atropelam-se nos seus lábios quando ela tenta expressar a sua indignação. “O véu suscita o ódio”, diz. “No ano passado, eu fui agredida por três homens na parte de fora do estabelecimento. Eles cuspiram na minha cara, eles me bateram, me insultaram. No liceu, disseram-me que nós éramos espíritos fracos e manipulados”. Desde a volta às aulas, ela continua tendo aulas, mas permanece isolada no liceu junto com a sua amiga Sarra que, também, traja o véu. Ambas continuam sendo submetidas à “fase de diálogo” com os responsáveis do colégio. “Nós fomos tratadas como se fôssemos prisioneiras. Durante os recreios, sempre ficamos sob vigilância. Nós não temos o direito de ir sozinhas ao banheiro. Vários camaradas me disseram: ‘Agora, só falta eles lhe colocarem uma coleira'”. Manèle diz estar farta de todos esses acontecimentos. “Eles querem fabricar robozinhos em série, todos dotados das mesmas coisas no coração e na cabeça. Mas, é o ensino que deve ser laico. Não os alunos. Apesar de tudo, nós continuamos sendo seres humanos. Eles acabaram com a minha vida. Por que eu haveria de mostrar os meus cabelos?”, dispara, chorando. “É uma lei desumana. Não se devem respeitar as leis desumanas. Eu lutarei até o fim. Mesmo que eu tenha de me apresentar perante a corte dos direitos humanos”, prossegue Manèle, mostrando uma grande convicção. “Dentro de trinta anos, tudo isso será uma lembrança distante”, acrescenta. “As pessoas dirão: ‘Até que nós éramos bastante racistas naquela época’, mas então, elas terão encontrado outra coisa para reprimir os amarelos, os negros…” “O diálogo se resume ao seguinte: ‘você obedece ou cai fora'”, explica Sarra, de maneira abrupta. “Nós não temos escolha”. Samia, por sua vez, preferiu entregar os pontos antes mesmo da volta às aulas. Apesar de ter sido admitida na quarta série, com 7,5 de média geral nas notas que ela obteve ao longo da terceira série, ela não se apresentou no seu novo liceu. “Eu não iria conseguir agüentar tudo isso. Eu preferi parar com tudo”, diz. Tradução: Jean-Yves de Neufville

Publicado originariamente em 12 de março de 2012.

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