França – Escolas francesas ignoram tensão sobre os véus – Lei que proíbe ostentação religiosa entra em vigor em clima calmo

3dc5171a912c91a4c1bb38297ee42d24tn

França – Escolas francesas ignoram tensão sobre os véus – Lei que proíbe ostentação religiosa entra em vigor em clima calmo

Dentro de um contexto conturbado pela implementação da lei que proíbe os sinais religiosos ostensivos, e pela crise instaurada pelo seqüestro de dois jornalistas franceses, Christian Chesnot e Georges Malbrunot, no Iraque, a primeira manhã da volta às aulas ocorreu em clima tranqüilo. A maioria dos alunos mostrou respeito pela nova regra. Doze milhões de alunos e quantos véus? A lei que proíbe os sinais religiosos ostensivos na escola –em particular o véu islâmico– entrou em vigor nesta quinta-feira (2/9), no conjunto da rede de escolas, colégios e liceus públicos da França. O contexto internacional, marcado pelas ameaças que pesam sobre a vida dos dois seqüestrados mantidos presos no Iraque, enfatizou mais ainda a importância da volta às aulas. As indicações que foram colhidas na manhã desta quinta-feira nos estabelecimentos considerados mais “sensíveis”, permitiram concluir que, na maioria dos casos, a primeira manhã –que diz respeito sobretudo às classes de primeira e de quinta série– ocorreu sem maiores dificuldades. “A volta às aulas é extremamente calma. Não foram assinalados quaisquer casos problemáticos”, informaram os assessores François Fillon (o ministro da Educação) no final da manhã, uma informação que foi confirmada por fontes acadêmicas que pediram para ser mantidas no anonimato. O liceu-símbolo Henri-Wallon, em Aubervilliers – Cerca de dez câmeras estão a postos, desde as 8h, na frente do portão do liceu Henri-Wallon, em Aubervilliers (Seine-Saint-Denis, região parisiense), aquele mesmo onde havia sido excluídas Alma e Lila Lévy, em outubro de 2003. Estão presentes, entre outros, dois canais de televisão alemães, uma televisão japonesa, os americanos Fox News e CNN, e o canal iraniano Al Alam. “A ONU é aqui”, comenta um jornalista, num tom zombador. Um dispositivo de recepção foi implantado –não para os jornalistas e sim para os alunos: a nova diretora do estabelecimento e os conselheiros principais de educação estão à espera dos alunos. Se uma jovem se apresenta trajando um véu ou um lenço, um representante do liceu lhe pede para retirá-lo. Em caso de recusa, ela é conduzida até uma “sala de diálogo” que foi aberta nas dependências administrativas. Nesta quinta-feira, não houve nenhum caso desse tipo. Philippe Darriulat, um professor do Henri-Wallon, acredita que a volta às aulas se dará sem problema: “Mas o lenço que até então era admitido, não será mais tolerado”. Uma jovem apresenta-se com um diadema branco que cobre metade dos seus cabelos: “Isso nada tem a ver com a religião”, diz. E ela acrescenta: “Se alguém me pedir para retirá-lo, eu rezarei por Alá.” Ela passa sem problema pelo comitê de recepção. “Jovens de véu tratadas como extraterrestres”. Na esplanada do liceu Raymond-Queneau, em Villeneuve-d’Ascq (Norte), os pequenos grupos de alunos que chegaram um pouco antes da hora, angustiados pela volta às aulas, são menos numerosos que os microfones e as câmeras. Por causa disso, muitos dentre eles se espalharam no parque ao lado, a uma boa distância das objetivas. Este liceu tranqüilo da periferia de Lille havia registrado, na volta às aulas de 2003, um recorde nacional não-oficial, com 58 garotas usando o véu. Por meio de um trabalho de diálogo entre alunas, pais e professores, 31 dentre elas haviam aceitado não mais usá-lo na escola. A manhã é calma mas a primeira jovem trajando o véu dá meia-volta ao avistar a multidão de jornalistas. Uma aluna de sexta série, ela limita-se hoje a acompanhar a sua amiga Hanane, que inicia a sua quinta série nesta manhã. Hanane está escandalizada: “Isso não é normal. Elas são tratadas como extraterrestres! Com este comportamento estúpido, elas vão ser obrigadas a retirá-lo”. A preocupação continua intensa em relação ao que acontecerá no dia seguinte, quando será a vez das alunas das classes mais avançadas voltarem às aulas. Este será o caso de Asma, que usa um véu roxo muito apertado em volta da cabeça: “Eu estarei com o meu véu amanhã, mesmo se eu pretendo retirá-lo para entrar no liceu. Eu acho que esta lei não é justa. Eu nunca falo da minha religião com as outras. Este é um assunto muito pessoal e eu não vejo em que isso pode incomodar alguém”, explica a jovem. “Hoje”, prossegue, “eu me sinto sobretudo constrangida. Eu vou estranhar bastante ao retirá-lo. Isso só ocorreu comigo uma única vez, nos vestiários de esportes da escola. Acho que vou precisar de um tempo para me adaptar. Mas eu não tenho escolha. Se eu quiser me tornar alguém nesta sociedade, eu preciso seguir adiante com os meus estudos”. O diretor do liceu, Armand Martin, deu uma breve declaração na frente da entrada do estabelecimento. Ele se recusa a prever o que poderia ocorrer nos próximos dias. “Cada coisa em seu tempo. Hoje, tudo correu bem. Nós permanecemos vigilantes. Todo dia de manhã, haverá um plantão para verificar, na passagem das alunas pelo saguão, se o novo hábito foi mesmo assimilado. Eu penso que esta lei é apaziguante. Não está havendo a mesma tensão que foi verificada no ano passado. Hoje, todos os alunos estão numa base de igualdade. As coisas se tornaram muito mais claras, para todo mundo”. O regulamento interno, por sua vez, também evoluiu: daqui para frente, é proibido usar toda e qualquer vestimenta que cubra a cabeça – boné, barrete, gorro e todo tipo de lenço. Jovem velada mostra serenidade – Mantendo uma certa distância em relação aos outros alunos, uma garota espera tranqüilamente a volta às aulas na frente do liceu Eugène-Delacroix, em Drancy (Seine-Saint-Denis – região parisiense). O seu véu vermelho e preto esconde totalmente os seus cabelos e o seu pescoço. De origem marroquina, Leïla (o seu nome foi mudado), 17, entra no primeiro ano de BEP (Brevet d´Études Professionnelles – um curso profissionalizante). Ela traja o véu desde os 12 anos e mostra uma grande serenidade em relação à sua escolha. “Eu vou retirar o meu véu antes de entrar, assim como eu costumava fazer no colégio, a pedido do diretor do estabelecimento”, explica, com uma voz suave. “Eu sou muçulmana. Mas a República francesa está me pedindo para agir dessa forma”. A título pessoal, Leïla confessa não entender a lógica da lei contra os sinais religiosos na escola, que ela considerou inicialmente como uma sanção. “Mas”, declara, “nós somos todos franceses e devemos respeitar as leis”. Desde o seqüestro dos dois jornalistas franceses no Iraque, a garota teme que ser vista de maneira mais hostil e agressiva pelas pessoas na rua. “É horrível o que fizeram com estes jornalistas”, diz. “Eles são os nossos compatriotas”. São 8h30. As portas do liceu são abertas. Ao passar pela porta do estabelecimento, Leïla deixa cair lentamente o seu véu sobre os ombros, antes de guardá-lo na sua mochila. O diretor do liceu recebe os alunos, com um sorriso nos lábios.No ano passado, cerca de dez jovens usando véu freqüentaram o estabelecimento. Nenhuma exclusão havia sido pronunciada, mas duas alunas resolveram se excluir por conta própria, uma vez que elas não efetuaram o seu estágio no hospital: elas se recusavam a e se descobrir os braços e os tornozelos. “A lei será aplicada com firmeza e tato”, explica Raymond Scieux, o diretor do liceu. “Se aparecerem alunas que se recusarem a retirar o seu véu, eu as atenderei numa sala à parte, lembrar-lhes-ei os termos da lei e iniciarei um diálogo com os seus pais”. Em Mulhouse, o alívio do diretor – “Nenhuma delas apareceu com um véu na cabeça. Ufa…” Presente para vigiar discretamente a chegada dos alunos das classes de quinta série, Gérard Greilsammer, o diretor do liceu profissionalizante do Rebberg, em Mulhouse (Haut-Rhin – nordeste), está visivelmente aliviado. Na manhã desta quinta-feira, ele interveio junto a dois garotos aos quais ele pediu para retirarem o seu boné no pátio de recreio. “Todos as vestimentas que cubram a cabeça estão proscritas daqui para frente”, indica. Entre 15 e 20 garotas com véu freqüentavam o liceu no ano passado. “A maioria dos docentes, exceto dois ou três, não se opôs a que elas fossem escolarizadas. Algumas dentre elas retiravam o seu véu em certos pátios, mas não o faziam em outros locais”, explica. O diretor havia pedido, em junho, às alunas trajando véu que continuavam sendo escolarizadas no seu estabelecimento para se comprometerem a respeitar o regulamento e a lei. “Todas elas assinaram um documento com este compromisso”, afirma Gérard Greilsammer, que diz querer se manter prudente: “A batalha ainda não está ganha; algumas destas garotas poderiam voltar a usar o véu quando a pressão terá diminuído”. Em Paris, a volta às aulas é tranqüila – Nem véu, nem choro, nem vela no liceu Turgot, no 3º distrito de Paris, onde uma reportagem televisiva –muito criticada pelos alunos– havia constatado a existência, um ano atrás, de vivas tensões comunitárias. “Por que os jornalistas querem enxergar a todo custo problemas onde eles não existem?”, dizem sem qualquer amenidade três alunas do liceu. Elas apagam o seu último cigarro antes de entrar no liceu. Aqui, fala-se em férias, ali, do próximo fim de semana. Alguns alunos fazem comentários sobre os seus futuros professores mas, nesta manhã, no centro de Paris, não surgiu nenhum caso de uso do véu.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Le Monde, 03/09/2004 – Paris / França

Publicado originariamente em 2004.

/ Internacional

Compartilhar esta Notícia

Comentários

Sem comentários até o momento.

Envie um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Enter Captcha Here : *

Reload Image