Rio de Janeiro – Escolas do Rio vão ensinar criacionismo

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Rio de Janeiro – Escolas do Rio vão ensinar criacionismo

A decisão de introduzir neste ano o ensino do criacionismo nas escolas estaduais do Rio foi condenada por cientistas. Ouvidos pela Folha, dois deles disseram que a iniciativa faz parte de uma estratégia política de grupos religiosos evangélicos que tentam contrapor a fé à ciência.

“[O ensino do criacionismo] é propaganda enganosa. É um caso que deveria ser visto como de defesa do consumidor. Os alunos deveriam procurar o Procon”, afirmou Ennio Candotti, presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

O criacionismo é a tese de que a criação do Universo e da vida é resultado da intervenção divina, como está na Bíblia. Essa visão vai de encontro à teoria da evolução das espécies, elaborada pelo britânico Charles Darwin (1809-1882).

Para Candotti, grupos políticos evangélicos descobriram no criacionismo um instrumento para “marcar posição, criar polêmica, ganhar visibilidade e arrebanhar apoio”. “Isso não é uma iniciativa sincera de discutir fé e religião.”

A polêmica no Rio de Janeiro vem do ano 2000, quando o então governador Anthony Garotinho sancionou lei que previa o ensino religioso confessional (com aulas separadas por credo) nas escolas estaduais.

Neste ano, a governadora Rosinha Matheus, que, como o marido Garotinho, é presbiteriana, contratou os novos professores. No entanto, segundo a Secretaria de Educação, não há estrutura para oferecer aulas confessionais. O ensino segue interconfessional, e o conteúdo das aulas é decidido por representantes das religiões.

A secretaria definiu a “criação” como tema a ser discutido neste ano nas aulas de religião. “Não vamos nos aprofundar no criacionismo, vamos tratar disso de maneira superficial, oferecendo a informação religiosa”, afirmou Suzana Viana, da equipe de educação religiosa da secretaria.

“Não vamos contrapor as teses, mas o equivocado seria oferecer só uma informação. O evolucionismo é tão questionado quanto o criacionismo”, diz. A linha é apresentar o criacionismo como mais uma tese sobre a origem da vida.

Ennio Candotti disse que não é correto comparar o criacionismo à teoria da evolução, mesmo que em disciplinas separadas. “O evolucionismo tem um lastro de estudos e comprovações.”

O físico e historiador da ciência Ildeu de Castro Moreira tem opinião semelhante. “A liberdade de crença é fundamental, mas é inadequado colocar no mesmo patamar o criacionismo e a seleção natural. Isso pode criar uma confusão danada na cabeça do aluno.”

De acordo com a bióloga Cláudia Russo, chefe do Departamento de Genética da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), os criacionistas vêm se especializando justamente em colocar uma coisa contra a outra.

“Os evolucionistas estão preocupados em estudar a evolução, enquanto o foco dos criacionistas é contestar o evolucionismo. Nos EUA, há cursos de criacionismo, cujo ponto central é ensinar a rebater a teoria da evolução”, diz.

“Essa briga política a gente perde por WO, porque não nos interessamos em contra-argumentar. Acho que a gente pode chegar rapidinho a uma situação como a dos Estados Unidos [onde há um forte lobby religioso para influenciar o sistema educacional].”

A reportagem da Folha quis ouvir a opinião da governadora Rosinha Matheus sobre o tema, mas, segundo sua assessoria de imprensa, ela preferiu não opinar. AUGUSTO GAZIR de

FOLHA – 13/05/2004 – 09h33

Publicado originariamente em 2004.

/ Brasil

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