Rio de Janeiro – O ensino religioso nas escolas

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Rio de Janeiro – O ensino religioso nas escolas

O governo do Rio de Janeiro introduziu este ano o ensino religioso confessional nas escolas públicas do Estado. Para isso, 500 professores foram contratados e separados por credos. Assim, nas aulas de religião, os alunos se dividem entre os ensinamentos da doutrina católica, protestante, espírita e de outras religiões, segundo as demandas da comunidade.

A medida causou reações contrárias e acendeu uma velha polêmica entre criacionistas e evolucionistas. Para alguns cientistas, o ensino religioso criacionista tenta desmoralizar a ciência e a teoria da evolução das espécies, de Darwin, criando uma falsa contraposição na explicação dos fenômenos da natureza.

Já grupos criacionistas defendem a inclusão de outros pontos de vista na educação. Segundo a teoria, a intervenção de Deus explica a origem do universo e da vida. Para eles, a teoria da evolução também pode ser questionada cientificamente e portanto não pode ser apresentada como verdade absoluta.

A AOL convidou dois cientistas que defendem pontos de vista distintos para debater o assunto. O presidente da Sociedade Brasilieira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ennio Candotti, e o engenheiro Ruy Carlos de Camargo Vieira, presidente da Sociedade Criacionista Brasileira, foram entrevistados pela repórter Alice Sosnowski.

“O mundo e o homem têm uma origem planejada”

Ruy Carlos de Camargo Vieira, presidente da Sociedade Criacionista Brasileira

Qual é a diferença entre a teoria da evolução e a teoria criacionista? A grande dificuldade de observar a natureza é saber se a vida resulta de um acaso mecanicista ou de um planejamento inteligente. O acaso é o fundamento da teoria da evolução, que, na realidade, não explica como as coisas aconteceram. Por exemplo, o Big-Bang foi um acaso, um acontecimento regido pelas leis do acaso, o que é um absurdo. Como é que o acaso pode ter leis? Como surgiu toda aquela matéria que estava condensada? Já na teoria criacionista existe uma origem planejada, uma ordem regendo tudo desde a chamada criação do universo físico, astronômico, até a modelagem do nosso sistema solar, do nosso planeta Terra e do surgimento da vida e do homem. Mas, este campo das origens, das quais não temos registros, é um campo de conjecturas, filosofia.

Por que o evolucionismo não pode ser considerado uma explicação plausível para a origem da vida? A mais simples célula é algo extremamente complexo. Nos tempos antigos, se pensava que a célula era uma coisa muito simples e foi essa idéia que deu fundamento para toda uma corrente evolucionista, que falava até da geração espontânea da vida. Hoje em dia, à luz da biologia molecular, viu-se que isso é uma impossibilidade, não só pela complexidade da célula, como pelo fato de que teria que ter sido criado um ambiente propício para esta célula continuar vivendo e se multiplicar. Não dá para reduzir a complexidade. Isso aponta para uma origem planejada, algo que começou desse jeito e não que foi evoluindo de uma coisa muito simples para uma coisa cada vez mais complexa.

Existem evidências que corroboram a tese criacionista? Vou dar um exemplo. Nas camadas rochosas sedimentares existem fósseis e eles estão numa certa disposição que vai do mais simples, das camadas inferiores, para o mais complexos, vindos das camadas superiores. A evidência é a existência de fóssil. Agora, daí a tomar esta evidência para apoiar a tese evolucionista vai uma distância enorme. Na tese criacionista a evidência dos fósseis soterrados desta forma é explicada pela ocorrência de grandes catástrofes que, biblicamente, foram chamadas de dilúvio. Uma grande catástrofe universal soterraria os animais rapidamente. Se na tese evolucionista, estas camadas levaram milhões de anos para serem formadas, na tese criacionista, experiências em laboratório mostram que os fósseis se depositaram rapidamente. Não há milhões, mas há milhares de anos. Aliás, só pode existir fóssil com soterramento rápido. Se ele não for assim, aquilo que morreu se desfaz no decorrer do tempo. Na ordem de dias, semanas, anos, nunca milhões de anos.

Se tomarmos como pressuposto que Deus criou a vida, a ciência não passa a ter limitações? Isso não brecaria os avanços científicos, já que a criação divina não pode ser explicada? Não. Já que não é possível responder a todas as perguntas, pelo menos vamos examinar as evidências a favor de uma tese ou de outra. A pesquisa científica evolucionista, que recebe os grandes apoios financeiros, tenta exatamente considerar as evidências mostrando que elas são favoráveis ao seu modelo. Os criacionistas não têm estas fontes de recursos, mas têm procurado demonstrar que evidências podem perfeitamente apoiar nossa tese. No entanto, os artigos que poderíamos publicar não são aceitos pelas revistas cientificas, que rejeitam idéias contrárias ao “establishment”.

O senhor aprova a medida da governadora Rosinha Garotinho que introduziu o ensino religioso confessional nas escolas? Por que não ensinar o criacionismo em aulas de religião? Eu não vejo problema nenhum. Se a intenção é estudar religiões, fazer análises antropológicas, sociológicas e ver que o sentimento de uma divindade sempre existiu, uma divindade com o poder de criar as coisas que estão ao nosso redor. A governadora está cumprindo o texto constitucional e a própria LDB [Lei de Diretrizes e Bases], que prevê a educação religiosa. Não é proselitismo, catequismo. É apenas uma educação religiosa, que forma uma visão mais ampla para o aluno, inclusive uma visão crítica. Ora, dentro dessa visão crítica cabe perfeitamente analisar o evolucionismo como uma religião sem Deus. É um paradoxo, mas acaba sendo uma religião. Tem seus sacerdotes, seu livro sagrado, o seu ritual.

Na prática, esta medida divulga o entendimento que vocês têm sobre a origem da vida, não? Veja. Nós não temos um entendimento, mas vários entendimentos. Ninguém da sociedade tem capacidade de se dizer um grande filósofo do criacionismo. Assim como o evolucionismo tem várias correntes, o criacionismo também. O fundamental é que todas essas correntes apontam para a existência de um planejamento inteligente, de propósito, de desígnio, objetivo nas coisas. E isso acaba tendo consequências até morais, porque se nós fomos criados como seres humanos com determinados propósitos, seja interpretado do ponto de vista islâmico, judaico ou cristão, nós temos responsabilidades. Agora se nós somos seres que surgiram a partir de uma evolução de espécies inteiramente ao acaso, nós somos uns animais um pouco mais desenvolvidos. Então aí começa a questão moral da guerra entre criacionismo e evolucionismo. Os criacionistas têm uma ética diferente com relação aos problemas da sociedade. Terrorismo, crime organizado, abuso sexual, aborto, eutanásia – tudo que são questões morais vistas de prismas distintos. A filosofia das posições é diferente.

O criacionismo parte do pressuposto que a crença em Deus é a base do entendimento da vida. Isso não pode gerar conflitos religiosos, já que cada religião vê Deus de uma forma? Independentemente de qualquer particularidade doutrinária, praticamente todas as religiões – desde a mais remota Antiguidade – crêem em um Deus criador de todas as coisas. O criacionismo não é uma religião, mas é algo que permeia a essência de todas as religiões.

A crença religiosa não pode se transformar em fundamentalismo? Pior que o fundamentalismo religioso é o fundamentalismo científico. O evolucionismo tido ao pé da letra também traz conseqüências. Por exemplo, a política racista de Hitler, os massacres de judeus, ciganos, a guerra na Chechênia e Iugoslávia. Tudo isso é resultado de posturas de uma raça ser superior à outra. Este é um conceito essencialmente evolucionista porque as raças evoluem. Então, a raça superior tem de dominar a inferior. Este é o fundamentalismo evolucionista. É muito fácil ficar acusando seja um ou outro.

 

“É um perigo ler a Bíblia ao pé da letra”

Ennio Candotti, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência

Qual é a diferença entre a teoria da evolução e a teoria criacionista? A teoria da evolução descreve a evolução da vida e dos seres vivos. Ela mostra como a vida foi se transformando a partir dos seres primitivos até os mais complexos. O surgimento do homem seria um dos ramos dessa evolução. Já as teorias criacionistas fragmentam os surgimentos como cada um tendo o seu nascimento próprio. E isso é muito mais uma imagem poética do que uma teoria cientificamente comprovada.

Por que o criacionismo não pode ser considerado uma explicação plausível para a origem da vida? Como eu disse, mais do que uma teoria científica, o criacionismo é uma doutrina vinculada a uma certa interpretação da Bíblia, que vincula a criação a uma data de aproximadamente 7 mil anos antes de Cristo. As pesquisas científicas realizadas depois de 1800 e os estudos paleontológicos de fósseis revelaram que esta data é muito anterior a 7 mil anos. Estas datações vão para milhões de anos. Portanto não há qualquer sustentação entre a teoria científica de datação e a doutrina bíblica.

Mas os criacionistas dizem que a teoria evolucionista também tem falhas… Existem lacunas, sim. Mas são refinamentos, questões que podem ter grandes influências, mas não a ponto de rever o arcabouço da teoria. Há mais de 150 anos que vêm sendo publicados trabalhos científicos mostrando que esta teoria é consistente. Se ainda existem questões abertas, isso não justifica de maneira alguma abandonar a teoria da evolução e buscar resposta na Bíblia.

Os criacionistas apontam, por exemplo, a ausência de fósseis de seres intermediários nos estudos das camadas geológicas. Isso não seria uma falha do evolucionismo? Não há qualquer estudo sistemático acompanhado a estas observaçoes. Todo mundo tem o direito de questionar, mas não tem nada a ver com a construção da teoria científica. Por isso, eu evitaria o confronto. Eu acho que é um erro dos criacionistas tentarem se contrapor. Reduz a doutrina religiosa, a colocando no campo das discussões científicas. É forçar muito a comparação ao tentar dar a estas doutrinas um caráter de verdade que é muito diferente daquela verdade perseguida pela ciência.

Os criacionistas mostram evidências de que o dilúvio tenha acontecido. Isto é possível? O grande problema do dilúvio é explicar como os bichos vindos da América Latina encontraram espaço na arca de Noé. Quando a América foi descoberta e encontraram uma porção de bichos aqui a primeira pergunta que os religiosos se fizeram é se esses bichos estariam na arca de Noé. Tinha uma arca de Noé americana também? Como os bichos chegaram lá? É óbvio que isso se transformou em um problema tamanho família. Fatos como esse mostram que tanto o dilúvio como a criação são imagens poéticas daquilo que de fato aconteceu.

O senhor aprova a medida da governadora Rosinha Garotinho, que introduziu o ensino religioso confessional nas escolas públicas estaduais? Acho que é propaganda enganosa. É uma utilização de doutrinas religiosas para fins políticos. Os alunos deveriam se queixar no Procon. Se a intenção é passar uma mensagem poética ou religiosa que toque a formação das pessoas, que se faça isso nas igrejas e nos templos adequados. A meu ver, esta não é uma questão a ser discutida na escola como forma de desmoralizar o ensino da ciência, o que pode causar graves transtornos na formação. Os alunos não entenderiam mais o que é uma teoria científica e uma opinião doutrinária ligada a tradições religiosas. De nenhuma forma, a religião deveria ser ensinada na escola.

É possível conciliar a teoria evolucionista com a crença em Deus? Há muito tempo a Igreja resolveu esta questão. Existem pensadores religiosos que são evolucionistas. Esse problema já foi superado. E só foi ressuscitado pelos grupos conservadores fundamentalistas. Aqueles que querem ler ao pé da letra a Bíblia, o que é um perigo. Se nós seguirmos a Bíblia literalmente iremos condenar à morte muita gente, parar o Sol e outras tantas afirmações que devem ser levadas pelo lado simbólico.

Quais são hoje os grandes mistérios que desafiam a ciência na questão da origem do universo e da vida? A ciência não se preocupa com a origem. A teoria científica descreve fatos encontrados e os coloca em modelos interpretativos. A ciência descreve a evolução do universo a partir de um determinado ponto inicial, mas o que vem antes não é pergunta que a ciência tenha feito. Este questionamento é apenas filosófico. Não há como pensar sobre alguma coisa que não tem qualquer evidência factual. No caso do Big-Bang, por exemplo, a ciência não sabe se teve um ou muitos. Qual dos universos nós estamos? Em um deles. Se as religiões se interessam por estas questões tudo bem, mas são campos diferentes. A ciência abandonou a preocupação com o ponto inicial e passou a descrever porque o Sol atrai a Terra, como o Sol e a Terra se movem. Ela não se preocupa com o que aconteceu antes, os primórdios ou quem é o responsável por tudo isso. Não há como responder. As perguntas dos criacionistas e dos evolucionistas são diferentes e se misturarmos vira uma sala em que não se entende mais nada.

O senhor acredita em Deus? Olha, se não existisse alguma ordem nesse universo, você não me entenderia. O simples fato de a gente poder se comunicar é porque há alguma ordem subjacente comum a mim, a você, a outros objetos que existem na natureza. Se você quer chamar isso de Deus ou de outro nome dá na mesma. Sem acreditar que esta ordem existe, eu não poderia achar que você me entende e que nossa conversa seria inútil. Agora, atribuir a esta ordem uma barba, uma cabeleira grande, uma vontade, um poder, aí é coisa de fantasia, interferência, predestinação. Precisamos entender que as propriedades que você atribui à palavra Deus podem ser as mesmas que eu atribuo ao espaço, tempo, substrato, à ordem universal para que o mundo possa ser entendido. Nisso eu acredito.

Publicado originariamente em 22 de novembro de 2013.

2004

/ Brasil

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