Rio de Janeiro – O ópio de Garotinho

RIO DE JANEIRO

Rio de Janeiro – O ópio de Garotinho

VEJA Edição 1841 . 18 de fevereiro de 2004 “O cardeal Eugênio Sales garantiu queo ensino religioso ‘coíbe toda sorte de violência’. Menos, é claro, a violência praticada em nome da religião, responsável pelas piores matanças da história”

Na França, na terça-feira, foi aprovada a lei que proíbe a ostentação de símbolos religiosos nas escolas públicas. No Rio de Janeiro, no mesmo dia, foi anunciada a publicação da lista de aprovados para o cargo de professor de ensino religioso nas escolas estaduais. São 500 professores, divididos salomonicamente: 342 católicos, 132 evangélicos e 26 pertencentes aos demais credos. Cada um deles deverá apresentar uma carta de credenciamento emitida por sua autoridade religiosa, que poderá dispensá-lo da função a qualquer momento, em caso de perda da fé. A autoridade religiosa terá também a atribuição de definir o conteúdo pedagógico das aulas de religião. O Estado do Rio de Janeiro, portanto, abre mão de algumas de suas principais prerrogativas: contratar, demitir e ensinar. Só não abre mão de pagar. A catequese governamental será financiada por todos os contribuintes, inclusive pelos ateus e agnósticos que rejeitarem o ensino religioso. A lei que estabelece o ensino religioso obrigatório foi sancionada por Anthony Garotinho, a partir de um projeto de Carlos Dias, apresentador da Rádio Catedral e membro da Renovação Carismática. Atendeu à solicitação da cúpula da Igreja Católica do Rio de Janeiro. O cardeal Eugênio Sales garantiu que o ensino religioso “coíbe toda sorte de violência”. Menos, é claro, a violência praticada em nome da religião, responsável pelas piores matanças da história. O bispo auxiliar Filippo Santoro, por sua vez, afirmou que o ensino religioso tem o poder de debelar a corrupção e a miséria. No manifesto de apoio ao projeto de lei em questão, o bispo auxiliar usou um argumento irrefutável para defender o primado da autoridade religiosa sobre o Estado na escolha dos professores: “Marx e Freud certamente ganhariam um concurso público para o ensino religioso, mas as instituições religiosas lhes negariam o mandato”. Ou seja, a Igreja Católica se orgulha de impedir que a rede pública possa cometer o erro de contratar professores semelhantes a Marx e Freud, por salários de 540 reais. O princípio da separação entre Igreja e Estado acaba de ser reafirmado pelos franceses. Em escola pública, a religião não entra. Quer cobrir a cabeça com um véu? Quer usar um solidéu? Quer pendurar no pescoço um crucifixo? Procure uma escola particular de seu gosto. Lá o ensino pode ser transmitido de acordo com o corpo doutrinário de sua confissão. Ela pode até ensinar que a humanidade surgiu com Adão e Eva. Pode até justificar a execução de hereges. Basta que seus custos não sejam pagos com os impostos de todos os contribuintes. No século XVI, católicos e protestantes franceses, em fuga das guerras religiosas na Europa, estabeleceram-se no Rio de Janeiro, fundando aquilo que seria conhecido como França Antártica. Aplicaram-se, por algum tempo, na obra de conversão ao cristianismo dos tupinambás. De lá para cá, a França mudou, abandonando todas as formas de proselitismo religioso, mas a França Antártica continua a mesma. Ainda tentam nos converter. Ainda nos tratam como selvagens.

Publicado originariamente em 2004.

/ Brasil

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