São Paulo – Sem preconceito – Colégios católicos de Campinas iniciam primeiro curso de capacitação em diversidade sexual

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São Paulo – Sem preconceito – Colégios católicos de Campinas iniciam primeiro curso de capacitação em diversidade sexual

Dois tradicionais colégios católicos de Campinas — Madre Cecília e Sagrado Coração de Jesus — deram início ao primeiro curso de capacitação em diversidade sexual para professores de escolas particulares do Brasil, de acordo com o Grupo Brasileiro de Pais e Mães Homossexuais (GPH). O objetivo é ajudar o educador a lidar com o preconceito e a exclusão que se dão pela manifestação da intolerância por meio de piadas, anedotas e atitudes que ridicularizam o aluno homossexual, bem como esclarecer conceitos sobre gêneros. A primeira aula aconteceu na última segunda-feira. Está previsto para o próximo dia 10 de fevereiro um laboratório, com dinâmica de grupos, com “situações desafiadoras” que surgem no dia-a-dia na sala de aula, que podem levar o aluno homossexual a deixar a escola e até a se suicidar.

Administrados pela Congregação das Irmãs de Nossa Senhora do Calvário, os dois colégios católicos de Campinas resolveram oferecer o curso para “trabalhar o preconceito e orientar os professores a lidarem com o tema e as situações cotidianas relacionadas a ele em sala de aula”. A diretora pedagógica dos colégios Madre Cecília e Sagrado Coração de Jesus, a irmã Vera Lúcia Fanchini, explicou que a idéia surgiu após a presidente do GPH, Edith Modesto, se oferecer para ministrar o curso. Professora universitária aposentada e escritora de ficção juvenil, com 11 livros publicados pelas editoras Ática, Larousse do Brasil e Escala Educacional, Edith já havia ido ao Madre Cecília por três vezes para conversar com seu leitores na escola.

“Pela primeira vez, estamos oferecendo este curso, que irá acrescentar pontos positivos para a escola”, afirmou irmã Vera. Acrescentou que o curso é destinado aos cerca de 110 professores das duas unidades, desde os que dão aulas na Educação Infantil até no Ensino Médio. “Precisamos trabalhar com as diferenças e saber conversar sobre elas”. Edith contou que o caminho para a aceitação do seu filho não foi fácil. “A fundação do GPH, há nove anos, faz parte desse processo, assim como a pesquisa, durante cinco anos, para o livro Vidas em arco-íris – Depoimentos sobre a Homossexualiade. Eu sabia que me sentiria melhor se conversasse com outras mães, mas nunca consegui. Por isso fundei o grupo”.

Paralelamente, Edith entrevistou 89 homossexuais, homens e mulheres, de 15 a 62 anos, para saber quem eram essas pessoas e organizou o livro. Neste percurso, começou a ajudar os grupos de militância em seu trabalho de capacitação em diversidade sexual para professores de escolas públicas. “Há três anos, criei o projeto de capacitação para professores de escolas particulares e o tenho divulgado pelas escolas, principalmente depois que eu soube de suicídios de adolescentes por não se aceitarem gays”. Segundo ela, diretores e coordenadores pedagógicos procurados gostaram do projeto, mas não se resolveram a colocá-lo em prática. “Pela primeira vez, o projeto de capacitação foi aceito por colégios particulares e o que mais me emocionou é que são colégios católicos”, festejou Edith.

Iniciativa surpreende interessados O adolescente N.S.S., de 16 anos, e a garota C.B.F. de 19 anos, se surpreenderam com a iniciativa dos dois colégios católicos de Campinas. Estudantes da rede pública de ensino, eles consideraram o curso como mais uma ferramenta para promover a desconstrução do preconceito contra as diversidades. N. é gay e C., bissexual. “Isto serve para desconstruir a idéia equívocada de que todo gay é sempre aidético e drogado”, disse N. Para ele, o preconceito é maior quando o indivíduo não assume a sua orientação sexual. “Tenho amigos estudando em instituições de ensino religiosas que não aceitam o fato deles serem homossexuais, tratando-os como doentes, que têm problemas psicológicos”.

C. disse que se privou de revelar a sua orientação sexual no ambiente escolar devido ao preconceito. Em Campinas, existe o Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais de Campinas (Centro de Referência GLTTB), criado em julho de 2003. “A escola é onde se forma os cidadãos e a sociedade nossa é heterossexista (que não reconhece a possibilidade de existência da homossexualidade ou mesmo da bissexualidade)”, analisou o coordenador do Centro, Paulo Reis. Para ele, o curso ajudará a descontruir o preconceito e a homofobia (ódio aos homossexuais). A entidade faz atendimento gratuito psicológico, jurídico e de assistência social.

Mais informações sobre o Centro de Referência GLTTB podem ser obtidas pelo 0800-771-87-65. O site Espaço GLS (www.espacogls.com.br), parceiro do Cosmo On Line, portal da Rede Anhangüera de Comunicação (RAC), também tem uma parceira com o Centro de Referência GLTTB, onde é possível enviar perguntas e denúncias sobre homofobia. O endereço eletrônico do Cosmo é o www.cosmo.com.br. (NB/AAN)

Assunto ainda é tabu na sociedade Infelizmente, no Brasil, ainda há poucos levantamentos confiáveis sobre o preconceito e discriminação aos homossexuais. Para a presidente do GPH, Edith Modesto, isto se dá em função do preconceito. “Ninguém gosta de falar sobre o assunto. A família não informa à polícia, as escolas se calam… Sabemos que o preconceito tem diminuído, mas não o suficiente”.

Somente nos últimos quatro meses, o GPH tomou ciência de três suicídios de jovens homossexuais. “Um deles, inclusive deixou cartas, explicando por que estava se suicidando. Nada foi noticiado e as escolas, que eu saiba, também não tomaram nenhuma providência”, disse Edith.

O preconceito mais relatado ao GPH é o auto-preconceito e o familiar. “Os adolescentes têm muita dificuldade de se auto-aceitarem, principalmente pelo medo de perderem o amor de seus pais. Os pais, por seu lado, não foram preparados para terem filhos homossexuais e sofrem muito. A saída mais adequada para essa questão complexa é a naturalização da diversidade sexual. Mas sabemos que não é tarefa fácil”, constatou. Para evitar constrangimentos ao aluno homossexual, Edith disse que, em primeiro lugar, o educador tem de adquirir conhecimentos sobre a diversidade sexual com pessoas especializadas. (NB/AAN)

MAPA DA VIOLÊNCIA E DISCRIMINAÇÃO DE 2006* TIPO DE VIOLÊNCIA

Descrição – Quantidade

Agressão física – 4 Agressão verbal – 43 Ameaça – 2 Assassinato – 1 Cafetinagem – 3 Exploração sexual – 1 Flagrante forjado – 1 Impedimento de entrada ou permanência em local público – 4 Preterimento em emprego – 1 Recurso para registro de BO – 3 Violência policial – 9

LOCAIS DOS ATOS VIOLENTOS

Descrição – Quantidade

Câmara Municipal – 1 Delegacia – 3 Estabelecimento comercial em geral – 21 Estabelecimento comercial GLBT – 4 Estabelecimento de ensino – 6 Local de trabalho – 6 Mídia/internet – 1 Residência da vítima – 7 Via pública – 72

ENCAMINHAMENTOS

Descrição- Quantidade

Abertura de inquérito policial – 3 Abertura de processo administrativo (Lei 9.809/98 e Lei 10.948/01) – 1 Abertura de processo por quebra de decoro parlamentar – 1 Confecção de BO sem abertura de inquérito policial – 3 Desistência em encaminhamento pela vítima – 15 Nenhum procedimento adotado por falta de dados comprobatórios/outro motivos – 33 Notificação feita pelo Centro de Referência – 16

* Dados referentes a 2005 porque o mapa de 2007 será lançado em abril e do relatório de atividades em julho

Fonte: Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Travestis, Transexuais e Bissexuais de Campinas – Centro de Referência GLTTB

Publicado originariamente em 28 de dezembro de 2013.

/ Brasil

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